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Aula 01

  • Apresentação da Disciplina:
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL (UFRGS)
FACULDADE DE ARQUITETURA
CURSO: ARQUITETURA E URBANISMO
ARQ01029 TÓPICOS ESPECIAIS EM PROJETO ARQUITETÔNICO I-C (2009/1)

CARÁTER: ELETIVA
CARGA HORÁRIA: 30h
CRÉDITOS: 02
HORÁRIO: SEXTAS-FEIRAS, DAS 18:30 ÀS 20:10
NÚMERO DE ALUNOS: 15 VAGAS – TURMA U
PROFESSOR: Benamy Turkienicz, PhD
COLABORADOR: Miguel Esnaola
MONITORES: Franco Miotto, Mário Gonzaga e Pablo Resende


SÚMULA DA DISCIPLINA
Atelier para a manipulação da matéria durante processos generativos da forma. Objetiva a produção de repertório a partir de exercícios-ensaios sobre a relação entre forma e matéria abordando propriedades técnicas, sensoriais e plásticas.

OBJETIVOS
A disciplina tem como objetivo o aumento do repertório de estratégias em criação da forma através de uma abordagem inovadora, de manipulação direta do material com objetivo de encontrar formas emergentes e inspiradoras, o Atelier Material busca o enriquecimento do vocabulário formal dos alunos - item indispensável no aprendizado de projeto.

CONTEÚDOS
O conteúdo está distribuído e especificado segundo três módulos; criação de repertório, exposição de gramáticas de exploração e prática de aplicação.

MÓDULO 1 – CRIAÇÃO DE REPERTÓRIO

No primeiro módulo, os materiais são literalmente ensaiados em relação às suas propriedades físicas e sensoriais gerando uma biblioteca de atributos da matéria, em quatro etapas:
A. Busca de materiais a partir dos estímulos sensoriais. Os atributos registrados não devem se limitar às propriedades visuais, ficando encorajada a exploração de sensações táteis, olfativas, auditivas e gustativas. Para garantir a diversidade de materiais são propostos 5 lugares distintos para a procura. Cada local deve dar origem a pelo menos dois materiais antagônicos em seus atributos.
B. Magnificação das estruturas dos materiais - até um nível que permita a identificação de um padrão - que leva a mudança total da percepção de escala. O exercício induz a um questionamento sobre a formação da matéria, estrutural e visualmente tornando-se uma ferramenta para estudos de reproduções paramétricas das formas descobertas. Partindo do padrão encontrado, é realizada uma contextualização com o objetivo de inferir novos significados através da inserção do objeto em um novo contexto.
C. Explorações físicas da matéria. As propriedades técnicas e plásticas são colocadas a prova exigindo-se o registro de cada ação. O objetivo do exercício é enriquecer a biblioteca de materiais com as possibilidades de manipulação física da matéria dando embasamento às futuras explorações formais. Além de ensaios de manipulações mecânicas, são testadas as reações dos materiais à exposição da luz. Onde são realizados testes que procuram criar a maior diversidade possível de resultados de incidências. Desde diferentes intensidades e orientações até a manipulação de cores e reflexões advindos de diferentes ambientes. Entre os possíveis testes estão iluminação direta, exposição contra a luz (distinção entre positivos e negativos), iluminação no fundo infinito (abstração da escala), superexposição das imagens (emergência de diferentes formas), iluminação com diferentes cores (diferentes sensações visuais).

MÓDULO 2 – EXPOSIÇÃO DE GRAMÁTICAS DE EXPLORAÇÃO

Neste módulo, conceitos de gramáticas de formas e cores são explicados e testados usando padrões encontrados pelos estudantes nos ensaios sobre os materiais.
A. Aprendizado sobre Gramática de Formas e de Cores, através de aula com professor convidado, assistentes e monitores.
B. Aplicar o conhecimento de gramáticas absorvido, em padrões de desenho e cores retirados dos materiais trabalhados.

MÓDULO 3 – PRÁTICA DE APLICAÇÃO

A. Desenvolvimento de um projeto para instalação dentro do campus centro da UFRGS. Aplicação dos conceitos na produção na escala 1:1 da forma gerada.
B. Desenvolvimento de um protótipo de arquitetura a ser inserido no âmbito do Campus Central. É importante salientar que não se espera um projeto arquitetônico detalhado e sim uma proposta formal. A escala e o programa ficam a cargo do aluno. E o resultado dessa experiência deve se utilizar dos outros exercícios da disciplina, levando em conta todos os assuntos abordados.

PROCEDIMENTO DIDÁTICO
Aulas de 1h40min envolvendo a exposição de conteúdos, atividades práticas com a aplicação dos conteúdos em exercícios específicos, discussão e avaliação dos resultados alcançados.

  • Aula explicativa sobre os aspectos sensoriais atrelados à matéria.
Rápida explicação sobre os cinco sentidos, sem subestimar o conhecimento dos alunos, mas relacionando o conceito de cada sentido com os atributos dos materiais. Serão apresentados exemplos de, no mínimo, dois materiais opostos, coletados nos lugares (Indústria, Parque, Shopping, Centro, Faculdade) que os alunos terão que visitar ao longo da semana para trazer os materiais coletados (em fotografia apenas, ou também em matéria) como entrega para a aula seguinte (Entrega 1 – “Busca dos Materiais”). Os exemplos explicitarão as sensações provocadas pelos materiais, nos 5 sentidos - visão, olfato, paladar, audição e tato. 

Aula 01

Architecture is a material practice

"Materials make up our built environment, and their interaction with the dynamics of the environment they are embedded within results in specific conditions we live in.
Moreover, culture and the way materiality and materials are understood and instrumentalised mutually condition one another. Herein lies the great challenge for architecture as a material practice. Materiality and material performance is thus by no means a subordinate question of detailing, but, instead, one of key significance."

Michael Hendel and Defne Sunguro

ğlu

Extracted from: Architectural Design Vol 78 No 2 March/April 2008: Versatility and Vicissitude Performance in Morpho-Ecological Design , Wiley Academy, London.

Faculdade (d)e Arquitetura

Segundo o Dicionário Escolar da Língua Portuguesa - Academia Brasileira de Letras - Companhia Editora Nacional
faculdade (fa.cul.
da.de) s.f. 1. Capacidade inata ou adquirida. 2. Aptidão intelectual ou física: O homem tem a faculdade de falar, as aves de voar. 3. Propriedade das substâncias: O ímã tem a faculdade de atrair o ferro. 4. Estabelecimento superior de ensino: faculdade de Medicina.

No mundo, as universidades são reconhecidas como centros de excelência de ensino, sendo consideradas geradoras de inovações tecnológicas e pesquisas revolucionárias. No Brasil, esta prática, tão comum em ambientes acadêmicos europeus e norte-americanos, não se faz tão presente quanto deveria ou poderia. Enquanto que no exterior é de praxe a experimentação de novas estruturas, formas, estilos e soluções arquitetônicas dentro das faculdades - uma vez que o local se caracteriza por ser um estabelecimento de ensino, representando a excelência intelectual de uma área profissional -, no Brasil as faculdades atualmente não oferecem, em sua maioria, possibilidades entusiasmantes de criação de conhecimento durante as aulas da graduação (principalmente as cadeiras de Projeto Arquitetônico) e nos laboratórios de pesquisa acadêmica.

Muitas faculdades brasileiras ensinam uma arquitetura que começou a ser realizada, na melhor das hipóteses, em 1970, com as edificações de Aldo Rossi (ganhador do Pritzker em 1990), a qual é chamada de arquitetura racional, inspirada pelos projetos que começaram a ser desenvolvidos por volta de 1915 (quando se iniciou o Movimento Moderno), por arquitetos como Le Corbusier e Mies van der Rohe (MONTANER, 1992). Não é a intenção deste texto discutir a qualidade dessa arquitetura, mas ela sem dúvida fez parte de uma época marcante para essa profissão e até hoje é desenvolvida no Brasil e nos países da Europa. Apesar da importância que esse movimento tem, outros estilos de arquitetura foram criados ao longo da história, tendo importância no cenário internacional, como o pós-modernismo de Robert Venturi (ganhador do Pritzker de 1991) e o neo-construtivismo do escritório OMA, representado pelo holandês Rem Koolhaas (ganhador do Pritzker de 2000).

Apesar do sucesso de outras arquiteturas, os graduandos das faculdades de Arquitetura têm contato com uma política de estudo quase exclusivo do "Movimento Moderno" e da "Arquitetura Racional", sendo este estudo muitas vezes baseado na constatação de que a arquitetura não pode ser ensinada (defendida também por Helio Piñón, Peter Eisenman e Wolf Prix). Dessa forma, as aulas se baseiam na mostra - quando ocorrem - de projetos famosos do Movimento Moderno (aquele de 1915) e da arquitetura racional atual. Não é necessário colocar em dúvida a importância do conhecimento dos alunos de edificações como o Seagram Building e a Casa Farnsworth de Mies van der Rohe, a Maison Domino e as Unidades de Habitação de Le Corbusier e a casa Schröder de Gerrit Rietveld, mas o que acaba ocorrendo nas práticas de projeto é a não-discussão sobre as vantagens e desvantagens de um determinado estilo arquitetônico, e infelizmente, a não-criação de novas soluções para os problemas projetuais.

Com esse panorama, o estudante não se vê em um ambiente pró-criação e experimentação, e sim em um local de sistemática repetição do "já visto", a composição de elementos pré-estabelecidos em um prédio com um novo programa, o que foi um dos principais problemas da primeira geração do Movimento Moderno (MONTANER, 1992). O resultado final do aprendizado ao longo da faculdade é visto no Trabalho Final de Graduação (TFG), quando os graduandos expõem o que deve ser o projeto de maior qualidade e a mostra de sua identidade formal individual. Infelizmente, olhando cada um dos resultados se constata a falta de grandes divergências de repertório da maioria, não querendo afirmar falta de qualidade, mas falta de novidade com embasamento teórico.

Após a formatura, o arquiteto recém-formado se depara com um mercado competitivo, que pratica - para citar um jargão comum dentro das faculdades - uma arquitetura comercial, a qual é rechaçada pelos núcleos de professores. Assim, resumidamente, o ex-aluno da graduação não está preparado nem para novos estilos de arquitetura, praticados por diversos escritórios europeus e norte-americanos - como o UNStudio, Foreign Office Architects e Zaha Hadid Architects -, nem para a arquitetura - de qualidade ou não - praticada nos grandes centros como Porto Alegre. Como não houve a já falada experimentação, o jovem arquiteto se vê na obrigação de criar seu próprio repertório inovador diretamente para ser construído, o que o leva para experiências com resultados muitas vezes equivocados formalmente.

Com base nisso, a disciplina eletiva Atelier Material tem como propósito principal a aplicação de exercícios que visem à exploração da matéria como ferramenta de elaboração formal, com base na busca pela definição das sensações provocadas em cada sentido e por novos materiais - construtivos ou não -, além da experimentação de mudanças de escala e uso, além da criação de sequências de manipulações e, por fim, a criação de uma instalação. Dessa forma, este conjunto de exercícios tentam diminuir a distância entre os alunos de arquitetura de Porto Alegre e os de países norte-americanos ou europeus para que, quem sabe um dia, termos uma outra "arquitetura brasileira", como um dia foi o Modernismo.

Franco Miotto.